Felipão convoca psicóloga e arranja culpado para mau futebol: emocional

Na conversa com os jornalistas na Granja Comary, Felipão concordou que o time precisava melhorar, mas queria era falar dos problemas emocionais do grupo e de teorias da conspiração
Oscar Valporto, do Rio de Janeiro (oscar.valporto@redebahia.com.br)
Atualizado em 02/07/2014 09:10:05
  
No começo da noite de segunda (30), enquanto o volante Fernandinho dava uma ponderada entrevista analisando as necessidades de melhoria na Seleção, o técnico Luiz Felipe Scolari chamava seis jornalistas para uma conversa informal e reservada em que deixava claro já ter escolhido um bode expiatório para o possível fracasso: os nervos dos jogadores.
Na conversa de pouco mais de uma hora, Felipão gastou muito mais tempo falando do lado emocional do que dos problemas técnicos e táticos do Brasil no Mundial e revelou que havia chamado a psicóloga Regina Brandão para conversar com os atletas.
Felipão ouve Parreira. Para o técnico, o problema do Brasil é psicológico; o time fica em segundo plano
(Foto: Gaspar Nóbrega/VIPCOMM)
A estratégia de escolher o bode expiatório emocional parece ter dado certo. Ontem (1º), um dia depois de Fernandinho jogar para escanteio qualquer necessidade de trabalho psicológico para o grupo, os jornais voltaram a focar nos problemas emocionais da equipe, pautados por Felipão - que reuniu repórteres de jornais e emissoras de São Paulo.
Os chutões da defesa direto para o ataque, a falta de criatividade do meio-campo, o isolamento de Neymar, a posição de Hulk: os defeitos evidentes da Seleção ficaram em segundo plano, como se vencer a Colômbia fosse um desafio emocional ou psicológico.
“Precisamos reduzir os espaços no meio-campo, controlar a bola e tocar bem para atacar com mais qualidade”, disse, em sóbria análise, o volante Fernandinho. 
Na conversa com os jornalistas selecionados em uma área reservada do Centro de Imprensa da Granja Comary, Felipão concordou que o time precisava melhorar, mas queria mesmo era falar dos problemas emocionais do grupo e da teoria da conspiração - de que a Fifa não quer o Brasil campeão e a imprensa está ajudando ao não protestar.
A tese é tão ridícula - um terço dos Mundiais foi conquistado pelos donos da casa, o Brasil e outras seleções tradicionais geralmente são beneficiados e não prejudicados - que não prosperou no papo.
Felipão passou, então, a ilustrar seu bode expiatório emocional. Desenvolveu a tese de que os problemas táticos e técnicos estão ligados aos problemas emocionais. Disse que seu capitão, Thiago Silva, precisa de atenção psicológica por estar sentindo demais o peso da  Copa, conforme revelou o jornalista Juca Kfouri em seu blog, acrescentando que Felipão foi “dramático e teatral ao seu estilo na conversa”.
De fora
O bode expiatório emocional tomou conta da entrevista com os reservas Ramires e Victor, que, como Fernandinho, recusaram a tese de que o problema é psicológico. “Não creio que a Seleção tenha problemas psicológicos. Já disputei a final da Champions, é muita tensão, muito jogador chora ou reza. Nós estávamos numa disputa de pênaltis. É normal haver tensão”, disse o meia do Chelsea, tentando trazer o foco para a Colômbia, adversária de sexta.
“Nós temos que olhar para frente, para o próximo jogo, que será difícil. Estamos evoluindo, mas temos que trabalhar para fazer melhor”, disse Ramires.
O goleiro Victor também foi incisivo. “Essa questão emocional está vindo do lado de fora para nós. O grupo está forte. Passou por um momento difícil, de grande tensão, e se classificou. Basta olhar o Júlio: ele chorou e passou confiança aos companheiros. Foi lá e pegou dois pênaltis”, argumentou, descartando necessidade de reforço psicológico.
Como Felipão certamente queria, as dificuldades da equipe ficaram de fora da entrevista: só os colombianos queriam saber como o Brasil via a Colômbia, como marcar James e Cuadrado. “Nós temos que tirar os espaços para roubar a bola e não deixar eles criarem”, comentou Ramires.
Arrependido
A entrevista terminou por volta das 14h, quando os jogadores se reuniram com a comissão e a psicóloga. Antes, Ramires e Victor foram obrigados a passar por um constrangimento criado pelo técnico, que disse a jornalistas que tinha se arrependido de convocar um jogador.
“A gente nem sabia que ele teve essa conversa”, disse Victor. “Vocês têm que perguntar pra ele. Conosco, nunca comentou nada”, acrescentou Ramires.
‘Faz parte do planejamento’, diz a psicóloga Regina Brandão
A psicóloga Regina Brandão, integrante da equipe do técnico Luiz Felipe Scolari desde a década de 1990, está de volta à Granja Comary. Chegou, ontem pela manhã, à concentração em Teresópolis para conversar com os atletas já de olho nas quartas de final, sexta-feira, às 17h, contra a Colômbia, em Fortaleza.
“A visita de hoje (ontem) faz parte do nosso planejamento inicial. Estava em aulas na universidade, então tinha que ficar indo e voltando. Não podia ficar aqui muito tempo, porque também tenho meu consultório. Entrei de férias na sexta-feira e, como já tínhamos planejado antes, estou aqui agora e volto na semana que vem”, disse Regina em entrevista ao canal de vídeos da CBF no Youtube.  
“É um trabalho que tem sido acompanhado no dia a dia. Falo com eles por WhatsApp, e-mail, então constantemente estou ligada neles”, garantiu a psicóloga, sobre o contato com os 23 jogadores convocados. Antes da Copa, o próprio Felipão botou pressão nos jogadores afirmando, diversas vezes, que a Seleção Brasileira é favorita e que será, sim, campeã do mundo.
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